Não é mais sobre você. Nem sobre seu fundo, seu PnL, seu bônus. Agora é tudo sobre o outro.
Parece óbvio, dito assim. Mas depois de décadas no automático, gerindo “ativos”, seguindo um “mandato”, falando com “pessoas” no máximo uma vez por mês num call de atualização com o alocador, é um choque real atender o ser humano que está por trás do cheque que chegava, sem rosto, no pool de dinheiro de um fundo.
É ainda mais chocante ter a finitude da vida escancarada na sua frente. Afinal, um dos objetivos do trabalho é esse: ajudar quem se materializa ali, do outro lado da mesa, a atravessar a vida com tranquilidade financeira, perseguindo os próprios objetivos, não os da sua tese de investimento.
É preciso humildade para aceitar que agora você está ali para servir um ser humano. E servir um humano é muito diferente de servir uma instituição. Você lida com as imperfeições, os vieses, as preferências de uma pessoa inteira. Não existe mais “melhorar processos” para fazer o cliente se adaptar à carteira que você acha ideal. Aliás, o que você acha, e que antes parecia tão importante, não vale muita coisa se não fizer sentido para o outro.
Deixar de ser gestor para ser consultor (ou advisor, se quiser manter o status Faria Limer) exige desprendimento. Das crenças, e sobretudo do ego.
A relação com dinheiro é muito mais emocional do que racional. Respeitar que cada pessoa carrega suas próprias verdades, moldadas pela própria experiência, é o passo zero dessa jornada. Não existe a carteira ótima, desculpe, caro Sr. Markowitz. O que existe é a carteira que dá o maior staying power no longo prazo para cada pessoa. Porque se depois de anos de gestão você ainda não aprendeu que quem carrega o piano dos retornos de um portfólio é o tempo e os aportes, talvez seja melhor voltar para a gestão até internalizar isso, e só depois voltar a atender gente.
Ensinar as pessoas a lidar com o dinheiro do jeito que elas são, e não do jeito que você acha que deveriam ser, é um exercício diário. Não é fácil, e não acontece da noite para o dia. Mas é bom, é bom mesmo, se tornar mais humano depois de décadas funcionando como máquina.

